10 de fevereiro de 2021

Exegese de Êxodo 4:24-26

INTRODUÇÃO



            Com certeza a perícope de Êxodo 4.24-26 é uma das passagens mais misteriosas da Bíblia, se ela não for a mais misteriosa da Bíblia, e foi a partir desse mistério todo nos sentimos motivados a tentar desvendar os seus segredos, mergulhar no seio dessa passagem para trazer à tona as repostas que ela guarda.
E esse é o intuito, buscaremos “as suas respostas” não somente em livros de pesquisa, mas principalmente na Bíblia, aquilo que está escondido em suas entrelinhas.

Desvendando Êxodo 4.24-26, ou não, será o nosso grande desafio, e esperamos conseguir encontrar respostas para essa pericope, mesmo que seja quase impossível, devido a sua complexidade.  

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1.    Como Tudo Começou

Antes de iniciar a interpretação de Êxodo 4.24-26, é preciso saber como o povo de Israel migrou para o Egito.

José, filho de Jacó e Raquel (Gênesis 35.24) fora vendido aos mercadores medianitas pelos seus irmãos (Gênesis 37.28) e eles o levaram para o Egito. Passado um período no Egito, José tornou-se governador do local (Gênesis 42.6). Mais tarde, Jacó e os seus filhos descem para o Egito, onde fixaram moradas (Gênesis 47.4-6).

Passado toda essa geração, houve um novo rei no Egito, um rei que provavelmente não conheceu a José e nem a sua família. E com base nessa nova geração, faremos uma breve viagem aos primeiros capítulos do livro de Êxodo para podermos entender melhor o que se passou.

Cap.1 – Há um novo rei no Egito. Este estava preocupado com a proporção que o povo de Israel vinha se multiplicando em sua terra, com isso, deu a seguinte ordem as parteira das hebréias: “Quando servirdes de parteira às hebreias, examinai: se foi filho, matai-o; mas, se for filha, que viva” (Êxodo 1.16). Além disso, o Faraó ordena que todos os filhos hebreus fossem lançados no rio Nilo, segundo consta em Êxodo 1.22.

Cap. 2 – Uma mulher, descendente de Levi dá a luz a um menino e acaba o escondendo por três meses (Êxodo 2.2). Quando percebe que não pode mais mantê-lo sob essas condições, a mulher o coloca dentro de um cesto e o põe no rio. A filha do Faraó o encontra enquanto se banha neste mesmo rio e o adota, dando-lhe o nome de Moisés. Após ter se tornado um homem, Moisés mata um egípcio e foge para Midiã (Êxodo 2.11-15). Lá, casa-se com Zípora e tem um filho, a quem dá o nome de Gérson.
Cap. 3 – Moisés estava a apascentar o seu rebanho, quando Deus aparece e fala com ele. O Senhor diz a Moisés que volte ao Egito e liberte o povo dele da opressão do Faraó e acrescenta que Ele será com Moisés. Deus é claro e diz: “Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-los da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel; o lugar do cananeu, do hetel, do amorreu, do ferezeu, do heveu e do jebuseu. Pois o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo opressão com que os egípcios os estão oprimindo. Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito” (Êxodo 3.7-10).

Cap. 4 – Moisés questiona a Deus em relação à veracidade dos fatos nos olhos alheios, então o Senhor lhe concede poderes para que os hebreus venham a crer em Moisés. Mesmo assim, Moisés se vê incapacitado de ir à diante, pois diz ao Senhor que não é eloqüente (Êxodo 4.10), no entanto, respondeu-lhe o Senhor: “Quem fez a boca do homem? Ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Vai, pois, agora, e eu serei a tua boca e te ensinarei o que hás de falar” (Êxodo 4.11-12). Depois de muito questionar, Moisés obedece a Deus, junto a sua esposa e seu filho, ele regressa ao Egito.



 2.    Questões A Serem Abordadas

Após uma prévia sobre a história de Moisés, há questões a serem abordadas nesse trabalho a fim de auxiliar e ou mesmo facilitar a interpretação da pericope de Êxodo 4,24-26.

·        Qual a tribo de Moisés?
·        Moisés era circuncidado?
·        Quem era Zípora?
·        Por que o Senhor queria matá-lo?
·        Por que o Senhor não o matou antes?
·        Por que o Senhor o comissiona e depois quer matá-lo?
·        Qual a passagem desse evento?
·        Qual a idade do filho de Moisés?

            Segundo a Bíblia, sabe-se que a circuncisão fora uma cerimônia ordenada por Deus a Abraão e aos seus descendentes como um sinal do pacto que fora estabelecido entre o Senhor e o seu povo.

Disse mais Deus a Abraão: Guardarás a minha aliança, tu e a tua descendência no decurso das suas gerações. Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós e a tua descendência: todo macho entre vós será circuncidado. Circuncidares a carne do vosso prepúcio; será isso por sinal da aliança entre mim e vós. O que tem oito dias será circuncidado entre vós, todo macho nas vossas gerações, tanto o escravo nascido em casa como o comprado a qualquer estrangeiro, que não for da tua estirpe. Com efeito, será circuncidado o nascido em tua casa e o comprado por teu dinheiro; a minha aliança estará na vossa carne e será aliança perpétua. O incircunciso, que não for circuncidado na carne do prepúcio, essa vida será eliminada do seu povo; quebrou a minha aliança. (Genesis 17.9-14)

Com base nessa passagem da bíblia, é possível saber qual a tribo em que Moisés pertencia, além de poder falar com propriedade que ele era circuncidado, uma vez que a sua mãe o manteve em segredo por três meses, já que o rito de circuncisão era feito ao oitavo dia de vida da criança do sexo masculino.

Foi-se um homem da casa de Levi e casou com uma descendente de Levi. E a mulher concebeu e deu a luz um filho, e, vendo que era formoso, escondeu-o por três meses. Êxodo 2.1-2

Quando Moisés se refugiou nas terras de Midiã por ter matado um egípcio, ele passa a morar na casa de um sacerdote cujo nome é Jetro. O sacerdote possuía sete filhas, uma delas é Zípora, a que foi dada por Jetro a Moisés. A cidade de Midiã estava situada no litoral árabe do golfo Pérsico.

Moisés consentiu em morar com aquele homem, e ele deu a Moisés sua filha Zípora. Êxodo 2.21.


 3.    Êxodo 4.24-26 Em Seus Originais

Antes de iniciarmos a interpretação da perícope, veremos qual é a tradução literal de cada versículo segundo os textos originais.

3.1 BHS E A Tradução Literal De Êxodo 4.24-26                          


24 E foi no caminho, na pousada, e encontrou-lhe Yahweh, e quis matá-lo.
25E tomou Zípora uma faca de pedra e cortou o prepúcio de seu filho, e lançou aos seus pés, e disse: certamente esposo de sangues és tu para mim.
26E se apartou dele, quando disse: esposo de sangues, por causa da circuncisão.


3.2.  Análise Léxico-Morfológica Da BHS

VERSO 24
VOCÁBULO
TRADUÇÃO
yhiîy>w
e foi
%r  
caminho
!Al+M’B 
na pousada      
WhveäG>p.Yiw
e encontrou-lhe
hwӑhy
Yahweh
vQEßb;y>w  
e quis 
At*ymih
matá-lo


 VERSO 25                                                                                         

VOCÁBULO
TRADUÇÃO
xQ;’Tiw
E tomou 
hr”øPoc
Zípora 
rc
faca de pedra 
‘trok.Tiw
e cortou 
tl;r>[‘-ta
prepúcio de 
HnӑB
seu filho 
[G:ßT;w
e lançou 
wyl’g>r:l
aos seus pés 
rm,aTo§w
e disse
yK
certamente 
~ymi²D”-!t;x
esposo de sangues 
hT’Þa
tu 
yl
para mim 

 VERSO 26

VOCÁBULO
TRADUÇÃO
@r,Yißw
E se apartou 
WNM,m
dele 
Za’…
quando 
hr”êm.a’
disse
!t:ïx
esposo de 
~ymiÞD
sangues 
tl{)WMl
por causa da circuncisão


3.3.  LXX E A TRADUÇÃO LITERAL DE ÊXODO 4.24-26

24 kyévexo õè Ev τή όδώ èv τώ καταλύματι συνήντησεν αύτώ άγγελος κυρίου και Εζήτει αυτόν άποκτειναι 25 και Λαβουσα Σεπφωρα ψήφονтерьбтецеу την άκροβυστίαν του υίοϋ αυτής καΐ Προσέπίσεν προς τους πόδας και Είπεν 'έστη το Αίμα της πφίτομής του παιδιού μου 26 και Απήλθεν άπ' αύτου διότι είπ€ν 'έστη το Αιμα της περιτομής του παιδιού μου

24. E aconteceu no caminho, no alojamento, encontrou com ele um anjo do Senhor, e buscava matá-lo.
25. E tomou Séfora uma pequena pedra lisa para circuncidar a incircuncisão do filho dela e caiu prostrada diante dos[seus] pés e disse: para provocar o sangue da circuncisão do meu filho.
26. E partiu dele porque disse: repousou o sangue da circuncisão do meu filho


3.4.  Análise Léxico-Morfológica Da LXX

VERSO 24

VOCÁBULO
TRADUÇÃO
eyeveuo
aconteceu  
ôè
Ε 
Εν
em 
τΐΐ
o   
όδώ
caminho 
ev
em 
τω
o 
καταλύματι
alojamento    
συνηντησεν
encontrou     
αυτω
ele 
άγγελος
um anjo 
κυρίου
do  Senhor 
και
e 
Εζήτ^ι

αυτόν
a ele 
άποκτεΐναι
matar 

VERSO 25

VOCÁBULO
TRADUÇÃO
και
Ε 
Λάβουσα
tomou     
Σεπφωρα
Séfora 
ψήφον
uma pequena pedra lisa 
την
a 
άκροβυστίαν
incircuncisão 
τοϋ
do 
υιού
filho 
αυτής
dela 
кт
e 
Прооетеоеу
caiu   prostrada   diante   de

προς
aos 
τους
os    
πόδας
pés 
και
e 
Eíirev
disse 
€στη
repousou  
το
o
Αΐμα
sangue  
της
da
περιτομής
circuncisão  
του
do
παιδιού
filho
μου
meu  


VERSO 26

VOCÁBULO
TRADUÇÃO
και
Ε 
Αττήλθ€ν
partiu     
αττ
desde 
αύτοΰ
ele 
διότι
porque 
€ΐπεν
disse
6στη
repousou   
το
o 
Αίμα
sangue      
της
da 
περιτομής
circuncisão  
του
do 
παιδιού
filho 
μου
meu      



4.     Versões Das Bíblias Para Êxodo 4.24-26

     Almeida, Revista e Atualizada
24. Estando Moisés no caminho, numa estalagem, encontrou-o o Senhor e o quis matar. 25. Então, Zípora tomou uma pedra aguda, cortou o prepúcio de seu filho, lançou-o aos pés de Moisés e lhe disse: Sem dúvidas, tu és para mim esposo sanguinário. 26. Assim, o Senhor o deixou. Ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão.

Almeida, Revista e Corrigida
24. E aconteceu no caminho, numa estalagem, que o Senhor o encontrou, e o quis matar. 25. Então Zípora tomou uma pedra aguda, e circuncidou o prepúcio de seu filho, e lançou-a seus pés, e disse: Certamente me és um esposo sanguinário. 26. E desviou-se dele. Então ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão.

NVI – Nova Versão Internacional
24. Numa hospedaria ao longo do caminho, o Senhor foi ao encontro de Moisés e procurou matá-lo. 25. Mas Zípora pegou uma pedra afiada, cortou o prepúcio de seu filho e tocou os pés de Moisés. E disse: “Você é para mim um marido de sangue!”
26. Ela disse “marido de sangue”, referindo-se à circuncisão. Nessa ocasião o Senhor o deixou.

NTLH – Nova Tradução da Linguagem de Hoje
24. Durante a viagem ao Egito, num lugar onde Moisés e a sua família estavam passando a noite, o Senhor se encontrou com Moisés e procurou matá-lo. 25. Aí Zípora, a sua mulher pegou uma pedra afiada, cortou o prepúcio de seu filho e com ele tocou os pés de Moisés. E disse: -Você é um marido de sangue para mim.
26. Ela disse isso por causa da circuncisão. E assim o Senhor deixou Moisés viver.

Bíblia Sagrada Edição Pastoral. Tradução: Ivo Stomiolo, Euclides Martins Balancin e José Luiz Gonzaga de Prado. Editoras: Sociedade Bíblica Católica Internacional e Paulus. 1990
24. Durante a viagem, numa hospedaria, Javé foi ao encontro de Moisés e procurava matá-lo. 25. Séfora pegou uma pedra aguda, cortou o prepúcio de seu filho, com ele tocou os órgãos sexuais de Moises e disse: Você é para mim um esposo de sangue. 26. E Javé o deixou quando ela disse: “Esposo de sangue”, por causa da circuncisão.

  Bíblia Sagrada Edições Paulinas. Tradução da Vulgata pelo Pe. Matos Soares. 1980
24. E, quando (Moisés) ia no caminho, o Senhor se lhe apresentou na pousada, e queria matá-lo. 25. Tomou logo Séfora uma pedra agudíssima, e circuncidou o prepúcio de seu filho, e tocando os pés de Moisés, disse: Tu és para mim um esposo de sangue. 26. E (o Senhor) o deixou, depois que ela disse por causa da circuncisão, esposo de sangue.


5.     Interpretando Êxodo 4.24-26

No versículo 24, quando diz que o Senhor encontrou Moisés e quis matá-lo, não acredito que Deus realmente queria matar Moisés, mas acredito que o Senhor esperava que ele viesse a cumprir a aliança que o Senhor havia feito com Abraão, pois Gersón, filho de Moisés, ainda não havia sido circuncidado. Porém, Deus escolheu a Moisés para libertar o seu povo da tirania do Faraó, segundo consta em Êxodo 3.2, e para que isso se cumprisse, Moisés precisava ser um exemplo entre o povo hebreu. Entretanto, vale ressaltar que apesar de Moisés ser hebreu, ele fora criado por egípcios e com base nisso, há um pressuposto de que ele não conhecia os costumes do seu povo de origem.

Uma vez sem saber o que fazer diante da presença de Deus, Zípora que tomaste as rédeas da situação, circuncidando seu filho com uma pedra aguda (versículo 25). Levando em consideração que Zípora era midianita, isso quer dizer, descendente de Midiã, e Midiã fora um dos filhos de Abraão e Quetura, ela sim saberia exatamente o que fazer diante dessa situação, foi por isso que Zípora fez o que fez. Mesmo porque, seu pai Jetro era sacerdote, então, provavelmente, Zípora pode ter visto seu pai efetuar o rito de circuncisão.

Acredito também que ao contrário de Moisés, Zipora tinha uma sensibilidade espiritual bem mais aguçada e captou algo que Moisés não entendeu. Quando Deus disse a Moisés que, se o Faraó não libertasse Israel, primogênito de Javé, Ele mataria o primogênito do Faraó (Êxodo 4. 22-23), e fora com base nisso que Zípora tomou a iniciativa de circuncidar seu filho Gérson.

Com relação ao ato de Zípora de ter cortado o prepúcio de seu filho e jogado aos pés de Moisés, para o nosso entendimento, ela provavelmente estava brava com Moisés, por ele não ter feito absolutamente nada quando o Senhor veio de encontro a eles no versículo 24, e ao proferir que ele era um esposo sanguinário, talvez tenha sido por causa do sangue que foi derramado quando Gérson fora circuncidado.

Uma vez que a circuncisão fora feita, Deus se aparta do local (versículo 26), pois para o nosso entendimento, aquilo que precisava ser feito, acabara de ser consumado.


CONCLUSÃO

Depois de termos feito todo o trabalho, mesmo com toda a base teológica que buscamos, é difícil expor, mas cremos que ainda não conseguimos desvendar os mistérios que essa perícope esconde.

Com base nesse tema, dissertações e monografias sempre serão escritas, e nas Igrejas haverá pregações e sermões, no entanto, inúmeras interpretações aparecerão, talvez com alguma semelhança, entretanto, cada interpretação é uma interpretação diferente.

Como dito no inicio, a perícope escolhida é um tanto complexa e enigmática, possui mistérios que pertencem somente a ela, tanto que essa passagem não é mais comentada em nenhuma parte da Bíblia.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Revista e Atualizada, 2ª. Edição

ALMEIDA, Revista e Corrigida

BÍBLIA SAGRADA, Edição Pastoral

BÍBLIA SAGRADA, Edições Paulinas

BUCKLAND, A. R. & Lukyn Williams, Dicionário Bíblico Universal, Edição revista e atualizada em maio de 2007

NET BIBLE – http://bible.org/netbible  Acesso em: 07/05/2011.

NTLH – Nova Tradução da Linguagem de Hoje

NVI – Nova Versão Internacional

VAILATTI, Carlos Augusto. “Decifra-me ou Devoro-te”: Em busca de uma solução Exegética e Hermenêutica para ao Enigma de Êxodo 4.24-26. [Artigo]. São Paulo, Publicação do Autor, 2011.
 
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Jesus Cristo usou tatuagem?

Há muitas pessoas que interpretam o texto de Apocalipse 19.16, “Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES”,[1] como se o texto bíblico descrevesse um “Jesus tatuado”. Já ouvi, inclusive, alguém dizer certa vez: “Galera, Jesus era um dos nossos! Ele também tinha uma ‘tatoo’ na sua coxa!”. Tal equívoco interpretativo se deve a três causas principais:
a) ao desconhecimento do texto grego original do Novo Testamento, bem como, de suas regras gramaticais;
b) às traduções existentes em português que, com uma rara exceção, dão margem para que esse tipo de interpretação equivocada seja feita;
c) à conveniência, pois algumas pessoas interpretam convenientemente um Jesus tatuado em Ap 19.16, porque, ao fazerem isso, estão encontrando um apoio “bíblico” que legitima o uso de tatuagens por parte destas mesmas pessoas.
Particularmente, creio que o problema todo esteja principalmente nos dois primeiros itens. De qualquer forma, depois de receber vários emails de pessoas questionando sobre a hipótese de Apocalipse 19.16 descrever Jesus “tatuado”, resolvi escrever esse artigo a fim de tentar esclarecer o significado deste verso tão mal compreendido nos dias de hoje, principalmente pelos jovens. Vejamos, então, Ap 19.16 do ponto de vista lingüístico, teológico e cultural.

I – O Ponto de Vista Lingüístico
O texto grego original de Ap 19.16 diz o seguinte: “kaìéchei epì tò himátion kaì epì tòn m&>75;ròn autou ónoma gegramménon: Basileùs basilé&ròn autou ónoma gegramménon: Basileùs basilé&&33;n kaí kýrios kyrí&n kaí kýrios kyrí&&33;n”.[2] Se traduzirmos este verso ao pé da letra, ele ficará assim: “e tem sobre a veste e sobre a coxa dele um nome escrito: Rei dos reis e Senhor dos senhores”.

[1] ALMEIDA, João Ferreira de. (trad.). Bíblia Sagrada. (Edição Revista e Atualizada). São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
[2] Esta é a transliteração (representação das letras do texto grego pelas letras correspondentes em português) do texto original. Baseio-me em: ALAND, Barbara et al. The Greek New Testament. Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 2005. Os sublinhados são meus.
No que diz respeito ao aspecto lingüístico, observa-se no texto grego que a primeira e a sexta palavras do versículo (sublinhadas) são as mesmas. Trata-se da conjunção “kaì” que normalmente é traduzida como “e” ou “também”, de acordo com o contexto em que ela aparece. Todavia, embora o primeiro “kaì” de Ap 19.16 possa ser traduzido como “e”, ou seja, “e tem sobre a veste (…)”, o segundo “kaì”, por outro lado, pode ser entendido como um “kaì” epexegético ou explicativo.[1] Em outras palavras, o segundo “e” do versículo, “(…) e sobre a coxa dele” deveria ser traduzido de forma explicativa, como, por exemplo, “ou seja”, “isto é”, “a saber”, “quer dizer” etc. Sendo assim, a tradução mais apropriada para Ap 19.16 seria: “e tem sobre a veste, isto é, [que está] sobre a sua coxa um nome escrito: Rei dos reis e Senhor dos senhores”.
George Ladd, que concorda com a interpretação que estamos dando, oferece uma tradução ligeiramente diferente: “no seu manto, isto é, onde ele cobre sua coxa”. Ladd ainda acrescenta que “não é mencionada nenhuma razão por que o nome estaria escrito na coxa”.[2] Além de Ladd, Henry Alford também concorda com a nossa interpretação e comenta que “a maneira usual de tomar as palavras é supor o kaí epexegético ou definitivo das palavras anteriores, ‘sobre Sua veste’, e que parte dela [da veste] está cobrindo Sua coxa”.[3] Some-se a estes autores ainda a opinião de Champlin, segundo quem, entre outros significados, o texto também pode ser traduzido como “…sobre vestes, a saber, sobre sua coxa…”[4], o que se harmoniza com o significado que entendemos ser o mais correto para esse texto.
Infelizmente, de todas as versões bíblicas em português que consultei, apenas uma traduz Ap 19.16 refletindo o seu significado de forma mais correta. Trata-se da

[1] Na gramática do grego, “epexegético” é o nome dado às conjunções, genitivos e infinitivos que explicam ou concluem o significado de algo. É também conhecido como explanatório ou explicativo. (Cf. DEMOSS, Matthew S. Dicionário Gramatical do Grego do Novo Testamento. São Paulo, Editora Vida, 2004, p.71). Veja também: BLASS, F. & DEBRUNNER, A. Greek Grammar of the New Testament and Other Early Christian Literature. [Trad. Robert W. Funk]. Grand Rapids, Zondervan, 1976, p.442.
[2] LADD, George Eldon. Apocalipse: introdução e comentário. São Paulo, Vida Nova / Mundo Cristão,1992, p.190.
[3] ALFORD, Henry. The Greek Testament. Vol. IV. [Hebrews-Revelation]. Chicago, Moody Press, 1968, p.728.Os acréscimos entre colchetes são meus.
[4] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento Interpretado: versículo por versículo. Vol. VI. São Paulo, Editora e Distribuidora Candeia, 1995, p.628.
Edição Contemporânea de João Ferreira de Almeida. Ela traduz Ap 19.16 assim: “No manto, sobre a sua coxa tem escrito o nome: Rei dos reis, e Senhor dos senhores”.[1]
Sendo assim, a partir da perspectiva lingüística podemos assegurar que a frase “Rei dos reis e Senhor dos senhores” de Apocalipse 19.16 não está “tatuada” na “coxa” de Jesus. Muito pelo contrário, estes dizeres estão escritos na “veste” (ou “manto”) de Jesus, a qual, por sua vez, cobre a sua coxa.

II – O Ponto de Vista Teológico
Antes de entrarmos no ponto de vista teológico em si, devemos dizer aqui que o livro de Apocalipse foi escrito aproximadamente na metade da década do ano 90 d.C.[2] Isto quer dizer que ele foi escrito por João cerca de 50 a 60 anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Portanto, Jesus já possuía (há mais de meio século) um “corpo glorificado”, imaterial, quando João escreve as linhas de Ap 19.16.
Já no que se refere ao aspecto teológico, Ap 19.16 está inserido dentro do contexto de uma visão que João teve (cf. Ap 19.11), devendo ser entendido, portanto, de forma “simbólica”, isto é, “não-literal”. Apesar de alguns comentaristas compreenderem Ap 19 à luz da queda da Babilônia – símbolo de Roma – conforme Ap 18, contudo, Ap 19 aponta para algo bem maior, a saber, a vitória escatológica completa de Deus e do Seu povo sobre o mal em geral, vista sob a perspectiva contextual mais ampla de Ap 19.11-21.8.
Assim, o título “Rei dos reis e Senhor dos senhores” escrito na veste de Jesus, se entendido corretamente de forma “simbólica”, era aplicado, segundo a tradição judaica, ao próprio Deus, o qual era visto como Rei suserano que governava acima de todos os reis da Terra.[3] Isto quer dizer que, Jesus, ao receber em Ap 19.16 o mesmo título majestoso que Deus recebia no judaísmo, estava se igualando a Ele em Sua glória e divindade. Além do mais, se entendermos Ap 19.16 como uma referência literal à “coxa tatuada” de Jesus (se este fosse realmente o caso, o que não é), teríamos que entender

[1] THOMPSON, Frank Charles. Bíblia de Referência Thompson. [Edição Contemporânea, baseada na Tradução de João Ferreira de Almeida]. Deerfield, Editora Vida, 1994.
[2] HÖRSTER, Gerhard. Introdução e Síntese do Novo Testamento. Curitiba, Editora Evangélica Esperança, 1991, p.185.
[3] KEENER, Craig S. Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento. Belo Horizonte, Editora Atos, 2005, p.836.
literalmente também outra visão de João na qual Jesus é descrito como tendo: “cabelos brancos como a lã branca, olhos como chama de fogo, pés como latão reluzente, voz como a voz de muitas águas, boca da qual saía uma espada afiada e rosto como o sol” (cf. Ap 1.12-17), o que seria bastante complicado.
Enfim, sob a perspectiva teológica também podemos afirmar que Jesus não tinha uma “tatuagem” feita em sua “coxa”.

III – O Ponto de Vista Cultural
Por fim, sob o ponto de vista cultural, creio que sejam bastante apropriadas as palavras de Champlin sobre Ap 19.16. Este autor nos fornece as seguintes informações:
“(…) havia um antigo costume de gravar o nome do artista sobre a coxa de uma estátua. (…) A arqueologia tem encontrado figuras assírias com inscrições gravadas sobre ela, bem como nas vestes que encobrem seus corpos. Também é verdade que os cavalos, entre os gregos, traziam sinais identificadores sobre suas pernas traseiras”.[1]
Porém, Keener explica que “na antigüidade romana, os cavalos e as estátuas eram às vezes marcados com ferro na coxa, mas as pessoas não”.[2] Aliás, esses exemplos fornecidos por Champlin e Keener, note-se, são extraídos de um contexto “pagão” (assírio e greco-romano), e não “judaico” ou “judaico-cristão”! Vale citar aqui as palavras de Alfred J. Kolatch, segundo quem “foi proibido aos judeus fazerem isto [isto é, tatuagens ou incisões no corpo] não só porque era sinal de idolatria, mas também porque vai contra as proibições bíblicas de derramar sangue e maltratar o corpo que Deus deu ao ser humano”.[3] Tendo isso em mente, seria simplesmente impensável imaginar um judeu dos tempos bíblicos tatuado (e Jesus era judeu!). Tal fato seria o cúmulo do sacrilégio!
Portanto, do ponto de vista cultural também não é correto afirmar que Jesus possuía uma “tatuagem” em sua “coxa”. Tal prática seria totalmente estranha à cultura (judaica) da qual ele, Jesus, fazia parte.

[1] CHAMPLIN, R. N. Op. Cit., p.627.
[2] KEENER, Craig S. Op.Cit., p.836.
[3] KOLATCH, Alfred J. 2º Livro Judaico dos Porquês. São Paulo, Editora e Livraria Sêfer Ltda, 1998, p.183.

Conclusão
Concluindo, um dos grandes problemas que ocorre na interpretação da Bíblia é que nós muitas vezes a fazemos partindo do nosso próprio contexto vivencial. Dito de outra maneira, muitas vezes nós projetamos para dentro da Bíblia nossas experiências pessoais, vivências, pressuposições e ideologias – o que é chamado no campo da interpretação bíblica de “eisegese”, em vez de buscarmos extrair do texto bíblico aquilo que ele próprio quer nos dizer – o que é conhecido como “exegese”.
Bem, de qualquer forma, cada um é livre para fazer o que quiser do “seu” corpo (o qual, na verdade, não é “seu”, mas de Deus, quem o criou e, portanto, detém direitos sobre ele). Porém, se você for fazer qualquer tatuagem no seu corpo, só não vá sair dizendo por aí que você está fazendo isso porque a “tatuagem” que Jesus tinha em sua “coxa” te autoriza a proceder dessa forma!
Por Carlos Augusto Vailatti   Fonte: www.guiame.com.br -post inforgospel.com.br



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Jesus e a sua humildade

Você sabia que o Senhor Jesus era famoso? Em Mateus 4.24, está escrito: "E a sua fama correu por toda a Síria; e traziam-lhe todos os que padeciam acometidos de várias enfermidades e tormentos, os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos, e ele os curava". Sim, a fama do Mestre era grande, mas não porque Ele a buscava (Lc 4.37; Mt 8.4; 9.31; Mc 6.14). Ele fazia a vontade do Pai e sempre o glorificava (Mt 11.25; Jo 11.41,42; 17.4,5).


A falta de humildade prejudica a comunhão com Deus, pois Ele não divide a sua glória com ninguém (Is 41.24; Pv 22.4; 25.27; 27.2; Fp 2.3). Repudie, pregador, a soberba (1 Tm 3.6; Tt 1.7; Pv 16.18). Vença-a, em nome de Jesus (Lc 9.23; Is 14.12-15; Gl 2.20; Jo 3.30; Dn 4.30; At 12.21-23). Lembre-se do galardão da humildade (Pv 22.4; Mt 5.19).

Por mais extraordinárias que sejam as obras dos super-pregadores, eles estão longe do Senhor (Sl 138.6; Mt 7.23). Jesus jamais fez propaganda de milagres. Enquanto muitos afirmam: "Eu fui chamado para pregar milagres", o Mestre e os apóstolos pregavam o evangelho, e os sinais os seguiam (Mc 16.15-20). Além disso, toda a glória era dada a Deus (At 4.5-12; 14.9-18). E mais: não há registro de extração de sapos, cobras, ossos, pedras, etc. do corpo das pessoas. Isso é uma das muitas manifestações estranhas desse período que antecede o Arrebatamento da Igreja (Mt 24.24), as quais se intensificarão na Grande Tribulação (Ap 13).

Sigamos ao exemplo do Pregador-modelo; reconheçamos que toda a glória pertence ao Senhor, haja o que houver (Mt 23.8-12; At 4.1-10; 14.8-18; 1 Co 1.26-28; Mt 21.26). Lembremo-nos de que Deus só usa, de fato, os humildes (1 Pe 5.5,6; Sl 138.6; Mt 20.25-28; Ef 4.2; Cl 3.12; Mt 18.4; Tg 4.6,7; Sl 147.6; 2 Cr 7.14). Não se iluda com os espalhafatosos super-pregadores, que pensam estar sendo usados pelo Senhor. Naquele Dia, caso não se arrependam, grande será a sua decepção!

 

 

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Deus abençoe sua vida.

 

O casamento de José – no Egito (Gn 41:45)


Introdução

Este breve relato busca informar ao leitor sobre o casamento do Patriarca José (do Egito), com uma gentia, filha de um sacerdote idólatra.
Através deste pequeno texto, o leitor poderá entender o porquê isto aconteceu, e também o fato  de haver um momento na história, em que o casamento de José passou a não ter mais nenhuma valia para o novo Faraó que se levantara – oprimindo assim o povo hebreu.
Este casamento é visto por alguns como um simbolismo entre a Igreja e Cristo, e por outros, como uma questão de providência Divina, para o povo de Deus, e um momento de fome e escassez de diversos recursos.
Mas no final deste relato, veremos que a Mão de Deus sempre esteve presente na história da humanidade! 

Texto I

Apresentação da Perícope 

“E o Faraó impôs a José o nome de Safanet-Fanec, e lhe deu como mulher Asenet, filha de Putifar, sacerdote de On[1] Gn 41:45

Na tradução de João Ferreira de Almeida, dispomos deste versículo no seguinte modo:

“E Faraó chamou a José de Zafenate-Panéia, e deu-lhe por mulher a Azenate, filha de Potífera, sacerdote de Om; e saiu José por toda a terra do Egito. (Gen 41:45 ACF)”

Conforme vimos, nas duas traduções, encontramos um versículo carregados de termos egípcios. Vamos analisar na tradução literal do texto hebraico, se existe alguma mudança significativa em relação ao que temos nas nossas bíblias:

Texto hebraico
Tradução literal
  WTT Genesis 41:45 וַיִּקְרָ֙א פַרְעֹ֣ה שֵׁם־יוֹסֵף֘ צָֽפְנַ֣ת פַּעְנֵחַ֒ וַיִּתֶּן־ל֣וֹ אֶת־אָֽסְנַ֗ת בַּת־פּ֥וֹטִי פֶ֛רַע כֹּהֵ֥ן אֹ֖ן לְאִשָּׁ֑ה וַיֵּצֵ֥א יוֹסֵ֖ף עַל־אֶ֥רֶץ מִצְרָֽיִם׃

E chamou o faraó o nome de José Zafenate-Paneia, e deu para ele a Asenate, a filha de Potífera, o sacerdote de Om, como mulher; e saiu José pela terra de o Egito. (Gn.41:45)

Como visto, não existe nenhuma palavra no hebraico, que pode tornar esta versículo enigmático, como o inesquecível Êxodo 4:24, entre outros.
Trata-se apenas da narrativa da união de um hebreu (que recebeu um nome egípcio – por questões culturais), com uma filha de um sacerdote egípcio, para formalizar a aliança entre estes dois povos.

Visões para este casamento

a) Há quem vê neste casamento, um simbolismo entre Jesus e a Igreja, ou seja, José tomou uma esposa gentia para si, no tempo em que ele esteve rejeitado pelos seus irmãos. Isto nos fala da formação da igreja, também neste período de rejeição de Jesus por parte dos judeus.
b) Porém eu prefiro ficar com a opinião de que o casamento de José foi por questões políticas e culturais da época, para que José pudesse exercer seu novo cargo (Governador do Egito) e ter pleno êxito em suas incumbências, semelhantemente como aconteceu com o rei Salomão, porém com José não houve um exagero de casamentos e uma poligamia desordenada.

Coloquei na nota de rodapé os nomes egípcios conforme apresentados pela Bíblia de Jerusalém, porém achei importante dar um melhor destaque a cada uma desta pessoas envolvidas na história do casamento de José:
Potífera – Foi um sacerdote da cidade de Om, no Egito Antigo. Seu nome significa aquele que Rá (deusa) deu. Foi pai de Azenate, a qual foi dada como esposa a José, quando este tornou-se homem de confiança de faraó. Foi ela quem acalmou José ao ver a ira contra seus dois irmãos, quando estes se reencontraram. Tiveram dois filhos: Manasses e Efraim
Om ou Heliópolis era uma cidade muito importante do ponto de vista religioso e político na época. O seu deus principal era o deus Rá, porém acredito que eles não tiveram dificuldades em aceitar também no seu panteão o Deus Hebreu (YHWH). Nada se fala se José passou a adorar outros deuses, assim como o rei Salomão fez, após seus inúmeros casamentos com mulheres estrangeiras e idólatras.

José viveu ainda cerca de 71 anos depois que sua família chegou ao Egito. Ali, os filhos de Israel cresceram e se multiplicaram muito.

Texto em hebraico
Tradução literal
  WTT Exodus 1:7 וּבְנֵ֣י יִשְׂרָאֵ֗ל פָּר֧וּ וַֽיִּשְׁרְצ֛וּ וַיִּרְבּ֥וּ וַיַּֽעַצְמ֖וּ בִּמְאֹ֣ד מְאֹ֑ד וַתִּמָּלֵ֥א הָאָ֖רֶץ אֹתָֽם׃ פ

E os filhos de Israel frutificaram, e fervilharam, e aumentaram, e se fortaleceram em muito muito; e se encheu a terra deles.

Isto nos mostra, que se não fosse pela vontade soberana de Deus, Israel nunca mais deixaria o Egito. Precisou então levantar um novo rei, que não conhecia José, e aflingir  o povo hebreu, para que eles pudessem se libertarem do Egito, em rumo a terra que YHWH havia prometido ao patriarca Abraão.


Texto II

Israel afligido no Egito 

Em meio a muitas discussões, há um consenso mais ou menos geral, de que os “hicsos”[2], ou rei pastores, governavam o Egito no tempo em que José ali chegou, tendo sido Apepi II, da XVI Dinastia, por volta do ano 1700 a.C., o Faraó que o colocou no poder.
Enquanto os hicsos governavam, os hebreus foram favorecidos no país. Porém, os hicsos foram expulsos pela XVIII Dinastia.
Com uma mudança tão radical de governo, surgiu um novo rei sobre o Egito, que não conhecera José.
Esta nova Dinastia, por certo, estava disposta a impedir que os hicsos voltassem ao poder. Temendo que houvesse uma tentativa nesse sentido e que “vindo a guerra”, os israelitas então muito numerosos, pudessem se juntar aos “nosssos inimigos e pelege contra nós” – (Ex: 1:10)., procuraram encontrar uma maneira de subjugar e enfraquecer o povo hebreu.
O fundador da XVIII Dinastia e que teria derrotado os hicsos, tem sido identificado como sendo o Faraó Amósis, antecessor de Amenotepe I, que escravizou o povo hebreu para enfraquecê-lo, o que mais tarde deu origem a conhecida história do Êxodo.[3]

Conclusão

Após o problema da fome e da escassez em Cannaã terem sido “resolvidos”, com a migração do povo hebreu para o Egito, o povo israelita passou a sentir-se em uma situação confortável, aderindo a cultura egípcia, e com a mais absoluta certeza, esquecendo do seu Único e Verdadeiro Deus.
Se os hebreus não tivessem sido oprimidos e escravizados no Egito, com certeza o plano de Deus (YHWH) de formar um povo particular – através da chama de Abraão, em Ur. dos Caldeus, teria sido frustrado, e Israel nunca teria sua independência como nação.
E o Messias!?
Simplesmente não teria vindo ao mundo, e satanás sairia vitorioso.
Afirmo aos leitores que quase que satanás venceu, mas, o Nosso Senhor é Soberano, e fez com que os hebreus saíssem do Egito, formassem uma nação particular, santa, perseguida, mas que nos trouxe o Redentor. 

Bibliografia


1 – Bíblia de Jerusalém – Paulus – 2008

2 – Bíblia João Ferreira de Almeida – SBB – 2008

3 – Champlin, R.N – Enciclopédia de Bíblia – Teologia e Filosofia – Vol. 1e 6 – Ed. Hagnos

4 – Bible Works – Versão 8

5 – Antigo Testamento Interlinear Hebraico-Portugues – SBB - 2012-10-18

6 – Guia Visual da História da Bíblia – Nacional Geographic

7 – Merril, Eugene H – História de Israel no Antigo Testamento – CPAD – 2011

            8 -  http://pt.wikipedia.org/wiki/Hicsos (acessada em 18/10).



[1] Nomes egípcios: Çofnat Paneah = “Deus disse está vivo”; Asnat = Pertencente à deusa Neith”; Potifera, o nome igual ao de Putifar, de 37 a 56 = “Dom de Rã” ( deus solar). O sogro de José é sacerdote de On = Heliópolis, centro do culto solar, cujos sacerdotes tinham um papel político importante. José aliou-se à mais alta nobreza do Egito. Mas esses tipos de nomes não são documentados antes das disnastias XX-XXI. Eles são o produto da erudição do autor. Fonte: Bíblia de Jerusalém p88 - Paulus
[2] Os hicsos (do egípcio heqa khasewet, "soberanos estrangeiros";"reis pastores") foram um povo asiático que invadiu a região oriental do Delta do Nilo durante a décima segunda dinastia do Egito, iniciando o Segundo Período Intermediário da história do Antigo Egito. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hicsos (acessada em 18/10).
[3] Merril, Eugene – História de Israel no Antigo Testamento.  P. 50  CPAD


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Rei Acabe e seu casamento com Jezabel


Rei Acabe – Reinou 21 anos, entre 874 a 853 aC

A história do Rei Acabe, na Bíblia, encontra-se entre os capítulos 16:28 e 34:54 de I Reis. Na história de Israel ele merece um destaque especial não pelas suas virtudes ou pelo que fez de bom, mas pelos seus defeitos e fraquezas, bem como pelo que fez de mau.
"E Acabe, filho de Onri, começou a reinar sobre Israel no ano trigésimo oitavo de Asa, rei de Judá; e reinou Acabe, filho de Onri, sobre Israel em Samaria, vinte e dois anos. E fez Acabe, filho de Onri, o que era mau aos olhos do Senhor, mais do que todos os que foram antes dele" - (I Reis 16:29-30 ).
Dele se diz ter sido "um rei politicamente forte e muito poderoso, mas muito fraco na moralidade pessoal".
De seu pai, o Rei Onri, está escrito que "fez pior do que todos quantos foram antes dele", todavia, Acabe conseguiu superar seu pai, em maldade.
Da história de Acabe não se pode dissociar a história do Profeta Elias, este, como um dos maiores personagens bíblicos do bem.
Portanto, dois homens com duas formas antagônicas de viver, e vivendo numa mesma época.
Elias, conforme veremos, foi contemporâneo de Acabe, Jezabel, Acazias, Obadias, Jeú e Aazael.
O casamento de Acabe com Jezabel
"E sucedeu que como se fora coisa leve andar nos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, ainda tomou por mulher a Jezabel, filha de Etbaal, rei dos sidônios; e foi, e serviu a Baal, e se encurvou diante dele" - ( Reis 16:31 ).
Jezabel, tal como aconteceu com o Rei Acabe, ficou famosa não pelo que fez de bom, mas pelo que fez de mau. Portanto, uma má fama.
Ela era uma princesa, visto ser filha de Etbaal, rei de Sidom e sumo sacerdote de Baal.
Sidom – sua localização
Sidom, ao lado de Tiro, era uma das duas maiores cidades-estados da Fenícia.
Queremos destacar, ainda, que entre Tiro e Sidom, ficava Serepta e estava mais próximo de Sidom. Esta região era governada por Etbaal, pai de Jezabel.
O conhecimento geográfico é útil porque ficamos sabendo que, enquanto, por ordem Jezabel e Acabe, o Profeta Elias era procurado pelos "quatro cantos", dentro e fora de Israel, Deus o escondeu na própria terra de Jezabel.
Deus não o escondeu numa fortaleza, numa montanha inacessível, mas na casa de uma viúva, onde ele hospedou-se, descansou, multiplicou o azeite da botija e a farinha da panela, bem como ressuscitou o filho da mesma.
Deus pode esconder seus filhos até numa cidadela inimiga e nem o próprio Satanás os encontra.
Ele escondeu Elias, em Serepta, na Fenícia, terra de Jezabel; Ele escondeu o menino Joás, por seis anos, no próprio templo, bem próximo do palácio da Rainha Atalia que mandara matar todos os descendentes da família real. Joás foi o único que escapou.
Quando Deus esconde, nem Satanás encontra. Acredite nisto!
No caso de Elias, jamais Jezabel poderia imaginar que ele estava escondido na sua própria terra, na terra governada por seu pai, Etbaal. Portanto, Deus tirou Elias do território de Israel, levando-o para a Fenícia.
Os antigos hebreus davam o nome de Canaã, à Fenícia, e seus habitantes eram chamados de cananeus, um povo camita, ou seja, descendente de Cão, filho de Noé.
Portanto, quando Jesus expulsou o demônio da filha daquela mulher cananeia, ele estava fora de Israel, ou seja, estava na Fenícia, terra dos cananeus -
"E, partindo Jesus dali, foi para as partes de Tiro e de Sidom. E eis que uma mulher cananeia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada"- (Mateus 15:21-22 ).
A Fenícia, ao norte de Israel, ocupava o território hoje ocupado pelo Líbano. Assim, sabemos que Jezabel, a terrível, era uma princesa cananeia, natural de Sidom.
Sidom era uma cidade antiga e rica, edificada sobre um promontório que entra no Mar Mediterrâneo, ao norte de Nazaré, cidade onde Jesus foi criado.
O "deus" Baal reinava absoluto em todas as terras dos cananeus, inclusive, em Sidom, onde o pai de Jezabel, além de rei, era sumo sacerdote de Baal.
O Rei Acabe fez muitas alianças com reis gentios e, certamente, seu casamento com a Princesa Jezabel foi fruto de uma aliança política entre Acabe e o Rei Etbaal.
Não se deve pensar que Acabe foi um rei monogâmico, visto que, como ainda veremos, 70 filhos de Acabe foram mortos em Samaria, por ordem de Jeú –
"Sucedeu, pois, que, chegada a eles a carta, tomaram os filhos do rei, e os mataram, setenta homens, e puseram as suas cabeças nuns cestos, e lhas mandaram a Jezreel. E um mensageiro veio e lhe anunciou dizendo: Trouxeram as cabeças dos filhos do rei. E ele disse: Ponde-as em dois montões à entrada da porta, até amanhã"- (II Reis 10:7-8 ).
 
 
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19 de janeiro de 2016

Crente pode fazer tatuagem?

Neste BLOG já foi apresentado um post referente a este assunto, sob um ponto de vista conservador.

Vejamos uma visão mais "liberal", alicerçada em questões linguísticas e culturais sob as quais este assunto foi abordado no Antigo Testamento.

O texto é de Ailton Santos

O CRISTÃO E A TATUAGEM!

Quando chorarem a morte de alguém, não se cortem, nem façam marcas no corpo. Eu sou o Senhor. (Levítico 19:28 NTLH)

Você já ter ouvido ou lido alguém dizer ou escrever, apoiado no texto de Levítico 19:28, ao não uso de tatuagem.


Mas, será que é sobre tatuagem que o texto se refere?

Pois bem, você vai encontrar apenas na tradução da Bíblia NVI a palavra "Tatuagem" - “Não façam cortes no corpo por causa dos mortos, nem tatuagens em si mesmos. Eu sou o SENHOR! (Lv 19:28)

Precisamos entender o contexto histórico e cultural inserido nesse texto: era parte do ritual pagão a escarnificação ou esfoliação como forma de honrar seus deuses. Exemplo o embate entre Elias e os profetas de Baal relatado no texto de I Reis 18:28 em que eles clamavam em altas vozes e rasgavam as suas peles. Eles também durante o cortejo do morto se autoflagelavam em sinal de lamento, e Deus por sua vez dá uma ordem para que o povo "Hebreu" não pratique tal ato de idolatria.

“As palavras do texto do verso 28 são: não façam (nathan) sareteth, incisão, corte, talho, na vossa carne pelos mortos, nem fareis (nathan) qa’aqa kethobeth, incisão, corte, marca feita a ferro em brasa sobre vós. O texto aqui se refere claramente a escarnificação, rasgar ou lacerar a carne, com o intuito de agradar aos deuses, ritual feito por inúmeras religiões pagãs" (Rev. Manuel do Carmo Filho).


Se o texto de Levítico 19 é normativo para a igreja Cristã, não podemos fugir então do versículo 27 que diz: "Não cortem o cabelo dos lados da cabeça, nem aparem a barba". (Levítico 19:27 NTLH). Esse ninguém quer aplicar, afinal quem quer andar como um homem ou mulher da caverna pelas ruas. (sic)
Não estou fazendo apologia ao uso de Tattoos ou percings ou qualquer outra coisa que seja relativo ao tema abordado, mesmo porque não tenho Tattoo e não tenho a intenção de fazer, nem tampouco recomendo alguém a fazer, porque dizem que dói demais (sic).

Mas, o que quero propor é que deixemos o relativismo religioso disfarçado de santidade, e entendam que não estou abrindo precedentes para um sincretismo religioso (quem me conhece sabe que sou um militante contra essa prática dentro das igrejas).

Deus nos chamou para sermos diferentes, como disse ao povo hebreu naquela ocasião, não somente no estereótipo, mas principalmente, no jeito de ser e nas atitudes do trato com nosso próximo.

Já sei que alguns vão perguntar: _ Mas o nosso corpo não é Templo do Espírito Santo?

Sim. Mas nos sentido plural e não singular, ou seja, como comunidade, a saber, Igreja. (2 pessoa do Plural: Vós sois... O corpo de vocês...). Não existe Templo do Espírito Santo sozinho! Mesmo porque membro fora do corpo é Frankstein! (mutação)

Se eu pudesse aconselhá-lo(a) e se é que é válido meu conselho, antes de fazer algo definitivo em seu corpo consulte a Deus. Consulte seus pais. Cônjuges. Filhos. Contrabalancei prós e contras. Se há algo nisso que desabone sua relação íntima com Deus e seus próximos nessa atitude ou se há algo que vá te atrapalhar no futuro, não faça! (Por amor ao fraco, não faça! By Apóstolo Paulo). Mas se você se sente tranquilo com essa decisão juntamente com o Espírito Santo, que ele te conduza.

O que sempre vai determinar nossa real conversão em Cristo não são desenhos no corpo, vestimentas, corte de cabelo, etc... Mas sim, os frutos do Espírito em nós (o amor, a alegria, a paz, a paciência, a delicadeza, a bondade, a fidelidade, a humildade e o domínio próprio).

Que sejamos circuncidado no coração pelo Espírito Santo essa é a marca válida para um verdadeiro Cristão (Gálatas 5)

Lembre-se: texto fora de contexto é pretexto para heresia!

27 de dezembro de 2015

Picaretagem Gospel - "Apóstolo" Agenor Duque inventa mais uma moda, e o povo gosta!

culto do Bispo Agenor Duque da igreja evangelica  Plenitude do Trono de Deus (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Do alto do púlpito, diante de cerca de 7 mil fiéis com as cabeças cobertas por um pequeno pano avermelhado, um homem vestindo uma roupa que imita estopa aponta o dedo para um rapaz da plateia: “Você é homossexual?”, diz ao microfone. Ao ouvir uma resposta afirmativa, continua: “E você quer sair do homossexualismo?”. O interlocutor diz que sim, e é convidado a subir no altar. Enquanto uma canção entorpecente embala a cena, o líder espiritual cerra os dois punhos, ergue os braços e grita: “No milaaaagre de Manassés, Deus apaga da memória agora todo o passado de sofrimento. No milaaaagre de Manassés, Deus faz a pessoa esquecer que um dia foi homossexual”. Volta a se dirigir ao rapaz.

– Seu nome?
– Junior.
– Você tinha alguma vida errada no passado?
– Não.
– Pensei que você era gay... Pensei que você morava com um homem...
– Não, Deus me livre.

Como que num passe de mágica, Junior diz que nunca gostou de homens. Na semana seguinte, volta ao mesmo altar para contar o desfecho de sua história. Diz que seu namorado, ao saber da conversão, caiu no choro. A mãe, surpresa com o esquecimento súbito, cogitou levar o filho a um hospital. Entre gritos entusiasmados de “aleluia” e “eu creio”, o público se levanta e aplaude a transformação.
O homem das vestes de saco – um figurino para demonstrar humildade diante de Jesus Cristo – é o autoproclamado apóstolo Agenor Duque, um paulistano de 37 anos, filho de pais separados, crescido numa família pobre da Zona Leste de São Paulo, ex-viciado em drogas. No concorrido mercado das igrejas neopentecostais, Duque é o pastor emergente do momento. Com uma forte vocação teatral e adepto da prática de prometer o impossível, Duque abocanha cada vez mais fiéis e começa a incomodar as igrejas concorrentes. Além das usuais curas de doenças e vícios, Duque promete apagar o passado da mente dos fiéis.
Não hesita em abusar de condutas preconceituosas, como propagar o “milagre” de fazer um homem esquecer a homossexualidade ou enfrentar num duelo um suposto adepto do candomblé. Prova de sua destreza para lotar igrejas e influenciar opiniões, o deputado e pastorMarco Feliciano não sai do altar da Plenitude. Na campanha eleitoral do ano passado, o tucano Geraldo Alckmin, reeleito governador de São Paulo, ajoelhou-se no púlpito de Duque.
Num roteiro já conhecido entre os pastores das neopentecostais, Duque começou na Igreja Universal do Reino de Deus e migrou para a Mundial – até que teve uma “visão espiritual” e decidiu criar seu próprio templo. Em setembro de 2006, abria a porta da Igreja Apostólica Plenitude do Trono de Deus. Com R$ 25 mil da venda de um Astra, Duque comprou algumas poucas horas nas madrugadas de rádios e alugou um galpão na Avenida Celso Garcia – que, pela facilidade de acesso e circulação intensa, concentra boa parte das igrejas neopentecostais. Há dois anos, Duque tinha cinco modestas igrejas em São Paulo.
Hoje, são pelo menos 20, espalhadas por São Paulo, Amazonas, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás e Distrito Federal – sem contar as dezenas de núcleos, galpões abertos pelo interior que, ainda sem documentação, não são considerados templos. No ano passado, a Plenitude firmou uma espécie de joint venture evangélica com a igreja de André Salles, o líder evangélico responsável pela conversão da ex-senadora Marina Silva, para aportar em Brasília. Em dois anos, a Plenitude saltou de quatro para 18 horas no canal de televisão RBI. Só entre outubro e novembro, passou de quatro para mais de nove na Rede Brasil TV.

>> “Deus me revelou que Marina será a próxima presidente”, afirma o pastor que converteu a candidata
O traje de saco nos cultos é uma espécie de abadá para uma encenação de pobreza. Há tempos Duque deixou a dureza para trás. Como os adeptos do funk ostentação, fora do palco ele se enfeita com cordões, anéis e relógios dourados, bonés e tênis de marcas como Nike e Hugo Boss e adora exibir-se no Instagram. Dirige um Porsche e um BMW. Já se exibiu em um vídeo com uma Ferrari – após críticas de internautas, recuou e disse que o carro era de um “amigo”, o pastor Arthur Willian Van Helfteren, da Igreja Universal do Reino de Deus.
Sempre que viaja, Duque evita apertar o corpanzil nas poltronas da aviação comercial; prefere o conforto de um bimotor Cessna Citation. De acordo com os registros da Agência Nacional de Aviação Civil, a aeronave pertence à Cimeeli Comércio e Indústria, uma empresa sem rastro. O telefone atribuído à Cimeeli é residencial e seus sócios não foram localizados.
Em um universo em que não faltam exageros, os cultos de Duque são espetáculos ainda mais histriônicos. Ele atua em parceria com a mulher, a autointitulada bispa Ingrid Duque, e mais recentemente com o filho adotivo, o pastor Allan. Em suas performances, Agenor Duque intercala suas falas com expressões incompreensíveis que diz virem da língua do Espírito Santo – “Traz o óleo, quibalamacia balabaliã”, diz, em meio ao culto, enquanto checa mensagens no telefone. Suas orações quase sempre terminam com um “hallelujah”, num esforçado sotaque americano.
“A religiosidade brasileira sempre foi muito sincrética. O brasileiro valoriza tudo o que o ajuda a se relacionar diretamente com o sagrado”, afirma Rodrigo Franklin de Sousa, professor de pós-graduação em ciências da religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “O teatro cai como uma luva.” Os cultos da Plenitude reúnem dramas humanos de todos os tipos. Há mulheres traídas pelo marido, fiéis com pendências com a Justiça, mães desesperadas para tirar o filho da prisão, pais de família desempregados, viciados que tentam resgatar a dignidade.
Converter os dramas em espetáculo e gerar lucro requer organização. Nos cultos de domingo, mais lotados, a igreja é dividida em quadras imaginárias, cada qual vigiada por um pelotão de obreiros. Numa cerimônia, um homem se exaltou e foi contido por seguranças. Curiosa, parte da plateia foi repreendida pelos obreiros: “Deus está no altar lá na frente. Parem de olhar para o lado”.
culto do Bispo Agenor Duque da igreja evangelica  Plenitude do Trono de Deus (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Em um dos episódios mais plásticos, no ano passado, Duque estava no altar quando um dos obreiros avisou sobre um homem que, sem abrir a boca, se apresentava como pai de santo e o desafiava. Rodando uma jaqueta ao redor do corpo, o homem subiu ao palco e foi ao encontro de Duque. Como se estivesse num MMA espiritual, Duque encostou a cabeça no adversário, deu dois gritos e – shazam! – o sujeito desmilinguiu-se. A plateia foi ao delírio. “O público gosta”, diz Paulo Romeiro, doutor em ciências da religião. “A igreja neopentecostal brasileira é cega, infantilizada, cheia de picaretas e cambalacheiros.”
Tanto cultos quanto programas no rádio e na TV da Plenitude têm um roteiro simples, que converge para a arrecadação. A pregação da Bíblia é quase inexistente. Invariavelmente, o pastor apresenta um “milagre” e, na sequência, pede dinheiro ostensivamente. Numa tarde de terça-feira, em outubro, uma pastora da Plenitude pediu aos fiéis que abrissem suas Bíblias em 1 Reis 17. A passagem conta a história de uma viúva miserável que, diante de uma onda de fome, doou tudo o que tinha – um punhado de farinha na panela e um pouco de azeite numa botija – a um profeta desconhecido, antes mesmo de alimentar o filho.
Ao final da leitura do capítulo, a pastora gritou ao microfone: “Deus está me dizendo que alguém aqui tem R$ 50 na carteira, é tudo que essa pessoa tem. Se você sentiu que esse chamado é para você, faça como a viúva. Ela deu tudo que tinha, e foi recompensada”. Uma mulher se encaminhou ao altar e retirou a única nota de R$ 50 da carteira. Os pedidos aos demais continuaram num crescente. “Prova para Deus que você acredita. Precisa ser um sacrifício grande, algo que dói! Limpa a carteira! Raspa a carteira! Ou faz como uma mulher no culto desta manhã, que doou o próprio carro.”
A adivinhação no púlpito, diz um ex-obreiro da Plenitude, não passa de uma trapaça. Na chegada à igreja, os fiéis com um pedido especial preenchem uma ficha com sua história – depois colocada no altar. Enquanto lê disfarçadamente o relato, o pastor repete tudo ao microfone como se estivesse tendo uma epifania. Ao reconhecer sua história, o fiel emocionado se dirige ao altar e confirma o milagre. “São verdadeiras empresas da fé”, afirma o teólogo João Flávio Martinez, presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas. Os pastores que arrecadam mais são recompensados e ascendem. “Eles recebem até bônus”, afirma um ex-obreiro da Plenitude. “Eles dizem que você tem de entrar na mente da pessoa, convencê-la a aceitar o que você diz”, afirma.
Às quintas-feiras, numa reunião fechada de presbíteros, os mais experientes recomendam “agressividade” e “olhar clínico” para identificar potenciais doadores. “Os pastores dessas igrejas são bem preparados, fazem cursos de marketing, de gestão, de oratória. A lógica é unicamente de mercado. Não existe uma base de doutrina”, diz Rodrigo Sousa. Os pastores das maiores agremiações fazem cursos específicos de gestão financeira de igrejas no exterior. A hierarquia é rígida. Como um presidente de empresa, Agenor Duque convive com poucos de seus comandados. Usa até mesmo uma entrada exclusiva na sede. Os insistentes pedidos de entrevista de ÉPOCA – todos negados – percorreram três instâncias antes de chegar a ele.
Em sua incansável cruzada por arrecadação, a Plenitude promove campanhas temáticas com objetivos específicos. Uma do Vale de Elah, traz um boneco recente, gigante que procura reproduzir a figura do rei David, vestido como um guerreiro, com escudo e espada no altar da igreja. Uma loja vende diversos badulaques inspirados longinquamente em temas bíblicos. A gama de produtos inclui a marca própria de roupas e acessórios femininos da bispa Ingrid, na loja Amor Oficial.
Os looks – saias estampadas, calças boca de sino, bolerinhos e vestidos longos com estampas em três dimensões – usados por Ingrid na TV e nas redes sociais são reproduzidos por boa parte das fiéis nos cultos. “Quem usa é escolhida por Deus”, diz Ingrid no Instagram da marca. Como a inflação não respeita nem o sagrado e não está fácil nem para milagreiros, na Amor Oficial também tem liquidação – só muda o nome: a Black Friday, o dia internacional do desconto, chama-se White Friday.
O ritmo de inovação da Plenitude é incessante. Recentemente, Duque passou a pedir o 13º salário dos fiéis – e até o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Para os próximos meses, planeja a construção de um novo templo, para o qual criou uma campanha específica, cuja contribuição começa em R$ 1.000. Em fevereiro, pretende lotar o Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, com capacidade para 13 mil pessoas, e o estádio do Canindé, em São Paulo, que acomoda 21 mil pessoas, com uma atração internacional: o controverso pastor Benny Hinn, que percorre o mundo com seus megacultos milagrosos. “Com a crise financeira, as igrejas neopentecostais estão tendo de se reinventar para entregar resultados”, afirma Rodrigo Sousa. No que depender da criatividade de Duque, a Plenitude pode superar limites.

Banca da unção  (Foto: Época )